Penso isso - durante uma conversa com Giulia diante da praça que não lembro o nome.
Não é todo dia que um sujeito brota de uma fonte de uma praça como se fosse o monstro do Lago Ness.
Trajava nada.
O mesmo se move nú em slow motion.
O sujeito construia-se de rugas e seus olhos traduziam uma tristeza tão profunda como se estivesse à cair num abismo.
Giulia direciona a luz de seus gigantes olhos verdes ao dividir aquela cena comigo.
Deixa escapar um sorriso-de-canto-boca qual denuncia algum pensamento maldoso.
Observo com muita atenção e uma certa misericórdia.
Não consigo lembrar-me do que Giulia dizia antes do que ocorre.
Talvez a mesma estivesse buscando uma deixa para continuar o assunto, mas notou que em momento estou muito concentrado naquela cena.
Eis que acompanha-me.
E derrepente o homem enrugado e triste começa a urinar um líquido dourado.
Mezzo brilhante.
Mezzo avermelhado.
Tornando a límpida água da fonte de um aspecto similar ao que exprime de seu canal deferente por seu falo com crista de galo.
Penso que de certo modo aquela fonte pode ser uma extensão do homem.
Dizem que Poseidon é o rei dos mares.
Fontes não fazem parte de mares.
Contudo, ao menos aquela fonte fazia parte de um outro reinado.
O reinado do homem feito de rugas e tristeza abissal.

- Giulia, nota como isso sugere uma série de interpretações sobre o tempo e ao que nos sustenta em vida?
- Do que você tá falando?
Sempre que ouço essa pergunta, consciente de que falei com clareza e pausa cada palavra que forma a sentença da interrogação anterior, sinto vontade de ter uma arma desintegradora do Marvin, o marciano.
É terrível pensar que já teria desintegrado boa parte dos seres viventes que tentei conhecer ao longo destes.

E de certo modo, desintegro, pois logo depois de uma resposta questionadora como esta última direciono total descrença ao fato de que essa figura seja necessária ou eficaz em meu mundo.
- Deixa pra lá. Você só me entende quando estou dentro de você ou quando te explico piadas.
- É um homem mijando, certo? Não há nada de magnífico ou interpretativo nisso.
- Não há aos seus olhos, Gi.
- Nós poderíamos rir, voltar ao assunto que estávamos conversando e ir embora daqui?
- Nós poderíamos rir?
- É!
- Ainda bem que agente não se vê muito...
- O que quer dizer com isso?
- Nada. Tô sendo cusão.
- Vamos sair daqui?
- Sim.
Engraçado como às vezes temos a sensação de que nunca mais voltaremos à determinado lugar.
E como podemos arrancar um pedaço de momento em razão de algum acontecimento inesperado.
O que de início não passava de uma fonte inútil, rende uma boa lembrança de uma tarde vazia numa cidade vizinha de Araraquara.
Todos nós, guardamos lembranças em razão de algum fator, lugar, evento, ou situação, etc.
Até mesmo a arte em suas diversas vertentes ativam nossa memória de momentos bons ou ruins.
Acordo e estou indo embora.
- Promete que me liga quando chegar?
- Não. Vou ensaiar assim que chegar.
- Me liga depois então...
- Hmmmm - cruzei os dedos - Tudo bem!
Mau já estava no ônibus.
Nossas poltronas são vizinhas.
Conversamos sobre a loucura desenrolada nesses rolês, concertos, caminhões de sprite e máscaras.
A idéia da fonte ser um reinado ainda existe em meu subconsciente.
Contudo, guardo para mim, pois, quem hoje em dia se interessa por isso?
Tentei dormir.
Manter o corpo aceso na noite anterior teve um preço.
O ensaio foi uma tremenda merda.
Apaga a luz!

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