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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sentença de Vida

Acordo no reflexo.
Olho no despertador que marca 6 horas e 20 minutos.
Entro religiosamente às 7 horas e 15 minutos.
Hoje é como ontem, e ontem será como amanhã que não passa de mais um hoje enrustido.
Pensei durante as escovadas circulares, dez vezes de cada lado e então alterna, tudo isso conferido com reluzidas no espelho.
Aprendi no consultório odontológico.
Saio do banheiro, procuro minha mochila, walk-man grandão horrível que mais parecia um extintor, skate véio e confiro material. Deixo tudo no esquema "cozinha-partiu".

Mamãe dorme. Papai também.
O que é estranho, pois os velhos costumam estar "acesos" neste horário para ir aos seus respectivos trabalhos.
Talvez estejam de férias, pensei - eles sempre combinam férias para viajar juntos. Já meus irmãos mais novos estudam durante a tarde, ou seja, são felizes proprietários das rédias dessa boiada de pregar os olhos até umas horas.

A vida é dura.
Contudo, sei preparar meu café - e graças ao grande pai tenho algo para "roer" assim que acordo.

São 6 horas e 40 minutos.
Estou no ponto de ônibus trajando meu "lindíssimo" uniforme (obrigatório por questões financeiras de interesse da escola e sei lá por que diabos) que não passa de uma camisa azul escura horrível com nome da escola, num tecido que não sei dizer e uma camisa branca com gola estranha mais feia ainda.
Noto que estou sozinho no ponto.

O que é de se estranhar, pois geralmente outras crianças da minha idade estariam aqui no ponto-de-ônibus aguardando a "bumba".
Foda-se!

E o ônibus está atrasado, porque geralmente chega as 6 horas e 45 minutos.
Foi assim ontem, anteontem. Sempre é assim, oras.
Pôrra!
Penso no motivo pelo qual não passei na banca de jornal para sacar a manchete de cada jornal, que é um hábito frequente.
Contudo, melhor não ir na banca de jornal, que fica praticamente na rua do lado do ponto, dessa forma posso perder o ônibus.

Se chego atrasado, a diretora já anda "fodidinha-da-silva" comigo porque explodi uma bomba no banheiro na semana passada.
Êita, já era hora.
O ônibus chega.
" Bom dia, cobrador." Disse ao cobrador que me olha estranho pra diabo.
Nem respondeu meu "bom dia" - pensei: " Que filhodaputa esse cobrador, nunca mais digo bom dia pra ele".

Cobrador legal mesmo é o gradessíssimo Zé-da-Égua, sempre conversamos sobre uma porrada de coisas.
Sobre xereca das meninas, sobre futebol, sobre rock'n roll - apesar do mesmo dizer que forró que é o que liga.

Certa vez, depois de insistir muito, Zé me explicou o que é gozo. Eu não sabia o que era.

Sabe por quê?
No começo do ano, uns caras "durões" da 5ª D me zuaram e deram soco no meu olho, porrada no fígado, cotovelada no gogó e várias torturas, bullying total.

Tudo começou quando Cosme, um arrombado aí do mais alto gabarito, que se acha mais macho que os caras do "Tele-Catch*" resolveu ter "um particular" comigo no intervalo:

Eu estava quietinho no meu canto, acabara de mastigar minha fogazza de queijo. E daí:

- Aí seu idiotinha de uma moléstia, disseram que você fez um buraco no banheiro das meninas. Sabia que minha irmã viu você olhando?
- Eu fiz mesmo, cara. O que posso fazer? Tenho curiosida...! POW (igual no seriado zuado do Batman)

Ele me deu um socão que ecoa desses que parece uma bigorna direto na sua fuça e disse enquanto absorvia a dor do seu punho de repetente de 14 anos - ao mesmo tempo que chegavam seus comparsas na famosa rodinha de treta de "recreio".

- Por que você me bateu?
- Foda-se porque te bati. Bato quantas vezes quiser. Se minha irmã falar algo sobre você continuar nessas pilantragem lá no banheiro, conversamos lá fora.
- Olha só, cara. Não adianta me bater. Eu vou continuar olhando.
- Você é folgado, sabia?
- E daí?
- Vc tem 10 anos, pirralho. Você nem sabe que cor é seu gozo.
- Lógico que eu sei...
- Que cor é seu gozo, então? Se errar vai apanhar mais ainda!
- É... (Fiquei pensando)... É... AZUL!

PAM-POW!!! Levei mais dois socões, enquanto os carcarás, amigos do Cosme, riam da minha "cabaçisse".

- Hahahaha... Vamo embora, caras. Esse moleque é um doido mesmo!

Cuspi sangue e foi um dente-de-leite junto. Lembrei da bola dente-de-leite.
Horrível, toda oval.
Daí, cheguei no busão para voltar pra casa com olho roxo, todo escangalhado.
Zé-da-Égua perguntou por quê briguei.
Expliquei o ocorrido. Zézão riu horrores.
E disse na sequência que gozo não é azul, explicou o quê era e que irei descobrir a cor um dia por mim mesmo.
Se caso algum brigão perguntar, para dizer que não sei mesmo, pois sou juvenil demais.

Bons tempos.
Isso foi no começo do ano. Estamos na metade do ano e pensando nisso, quase passo do ponto de desembarque.
Não sei porque o Zé-da-Égua não veio trabalhar hoje.

Engraçado que este cobrador ainda continuava me olhando estranho, e não tinha nenhuma outra criança no ônibus. Pensei que derrepente pudesse ser alguma espécie de feriado ou ponto facultativo.

Dou sinal no ponto da escola.
Desci e caminhei até o bar do Nasal que também estava fechado. Viro a esquina da Martim Francisco e me deparo com os portões fechados e ninguém na escola.
Não estava entendendo porríssima nenhuma.

E as pessoas que passam por mim, olham mais estranhas que a vista grossa do cobrador.
Até um maldito MONOCELHA me olha esquisito.



- Que é que foi, monocelha do caralho? Sai fora!

Quem passa de carro buzina, e dá uma zuada. Quem passa do meu lado, fica olhando-me das cabeças aos pés.

Lembrei de uma vez que tive um pesadelo que ia para a escola pelado sem perceber e todos começaram a rir de mim (e não comigo, huh?).
Daí meu pinto encolhia até virar um mamilo.
Contudo, estava trajando o uniforme da escola.

- Peraí...


Eis que caiu a ficha.
Fui na banca de jornal e li a pior notícia do dia: " Sábado, 12 de Junho 1993".
A moça da banca de jornal sorriu para mim e disse ao ver minha cara de confuso:

- Que menino estudioso! Vai à aula mesmo quando não tem. Fofo!!!

Respondi com um sorriso amarelo forçadíssimo ao limite de um semblante corado de vergonha e frustração.

Queria me enfiar no buraco do cu do capeta, bixo.
E não importa se o "coiso-ruim" peidasse chamas ardentes do mármore do inferno.

Vontade maligna emergindo do fundo do meu coração uma tensa vontade de gritar e rasgar aquele uniforme e sair correndo por aí doido.

Eis que pensei:

" Merda, preciso voltar pra casa urgente, se a rapêize da escola saca que eu fui pra aula num sábado, eu tô fodido.
Vou levar mais porrada de Cosme e seu bando. Serei motivo de chacota mais que já sou". E corri. "Run, Forrest, Ruuuuuun..."

Corri no desespero como quem foge de um mundo cruel e filho-da-puta que tenta te mastigar para cuspir.
Eis que paro. Para buscar mais ar.
Pego meu walk-man que mais parecia um tocador de LP's, coloco a fitinha de alguma coletânea que algum brother mais velho da pista de skate me descolara.

Nem vi o que era, coloquei a primeira k-7. E Jello Biafra dizia algo aos meus tímpanos sobre "sentença de vida"!

Chego em casa e são quase 8 horas.
Todos ainda dormindo.
Abro o portão com muito cuidado, eis que entro de fininho.
Desço pro meu quarto. Jogo minhas tralhas no cama, pego o cobertor que tinha dobrado.
Deito todo suado na cama. Me encubro e tento voltar ao sono.

Durmo depois de alguns pensamentos soltos, com uma certa sensação de estranheza do mundo.



Tele-Catch * Programa de luta-livre que rolava na extinta tv Manchete.