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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Bando Espiritual Ao Redor

Festa da Mariana – O massacre do Ornintorrinco mal passado.


Tudo começou na sexa-feira, ao sair de casa, ligo para Caio, Ishikawa (que estava dormindo) e Mônaco, nenhum dos dois soavam dispostos à comparecer no festejo de despedida da amiga de Junior, qual eu nem conhecia, e vice-versa, que atendia por Mariana G.

Peguei a bebida na geladeira, sai de casa em clima de garoa, pensei em passar na casa do Gabriel, mas acredite ou não é indelicado visitar as pessoas naquela altura do campeonato – 22 horas.


Perguntei onde raios ficava a tal da rua do festejo, aqui no ABC, as pessoas indicam sem sacanear, diferente de outros lugares. Pá pum. Chego no “squat”.


O local da festa realmente é uma casa abandonada, de paredes brancas, sem móvel algum, e alguns maus fluídos num quarto secreto onde ninguém ousava adentrar, abaixo rola um boteco com tiozões deveras alucinados pelo álcool e “otras cositas mas”.


Confesso que não conhecia ninguém, como se deve conhecer para fazer parte de um festejo de despedida. Júnior, que chegou pouco depois que adentrei o recinto, até estranhou minha presença. Isso por que era a pessoa que “maaaais conhecia” na parada.


Mariana parecia preocupada que a rapêize não chegava, com o tempo, toda sua gangue se fez presente. Penso eu, que não sei exatamente se aquilo era sua gangue ou algo que o valha.


Bem, para encurtar a parada, a rapêize da festa da Mariana foi ultra receptiva, conheci uma série de pessoas, inclusive a Juliane e a Dani, que contavam histórias muito boas sobre skate e não ser bonitas no colégio – acredite ou não as duas eram belíssimas. Muita coisa pra colocar aqui no primeiro dia do rolê.


Engraçado como um violão muda o conceito. Rolou até um acústicozinho SilverChair do Neon Ballroom ehehehe....


Fui pra casa depois de me despedir de boa parte dos jovens, por volta das 8 horas, eis que despluguei o mundo.


Arte Punk & esbórnea mesmo: a fronteira final.


Acordei por volta das 16 horas. Manchester United versus o time idiota do Robinho. Óbvio que o Manchester United venceu. Nem quis ver o jogo por isso, eis que ligo pro Fabi.


  • Aí, cu, qual é?

  • Seu vagabundo, mãe, vem aqui que tão passando trote!

  • Porra, sou eu, meu amor. Ouunnn, meu peitin de pombin.

  • Fala, seu rola murcha!

  • Então, que horas a gente se esbarra?

  • Tô saindo daqui a pouco, bixo. Sei lá.

  • Faz seguinte, vou ver uns treco aqui, depois te ligo.


Daí fiquei pensando; “ Porra, tá foda, senso alucinado, mal acorde e já vou dar uma banda por aí. Hmm... Putz, níver da Ju, deixa eu ligar pra ela.

Ligo pra Juliane, não digo o que falei, óbvio. Quer moleza? Como diriam os meninos de Natal do Catärro; “ Sente no colo do papa!” Muito tempo no telefone com a Juliane, desligo e vou banhar-me.

Eitaaaaaa.... Calma, gente, era sábado. Banho tomado. Deu um tapa no belo, uauuuuu – parecia um gatão. Okay, eu sei que não sou grandes merda, mas até que dá pra tirar um lazerzinho. Escolhi a camisa mais brega, a calça de sempre, tênis de sempre e “voilá” (pra quem é burro procure o significado dessa palavra francesa, que não vou explicar nada não) estou prontinho para pecar.



Ligo pra Fabi, um dos meus melhores amigos, quando estava pra chegar. Encontro-o na catraca do metrô Barra Funda, ele não consegue segurar os elogios para com minha humilde e linda e fodona pessoa. Eu digo: “Bixo, o que vc diz não é novidade... Eu sei!”


Groupiesmos à parte, chegamos no CCJ. Enrolei o guardinha que não queria deixar eu e Fabi penetrar a parada.

  • Não pode entrar, já era, passou do horário.

  • Como assim, bixo? Seguinte, só vou levar um treco aqui pra entregar pro meu amigo que tá expondo, e caimos fora, vamos colocar em prática do verbo sumir deste lugar! Okay?


Essa colou grandão. E Kauê Garcia estava lá com Carol e toda uma rapêize, maioria do ABC, que foi prestigiar o talento de nosso grande artista. Bebidas, exposição, conversas sobre histórias do hardcore de SP, conversas sobre postura diante da arte, cocozinhos de lagartixa e coca-cola.


Eis que é chegada a hora de partir de Vila Nova Cachoeirinha. O Massacre Em Alphaville tocava no Impróprio. Onde eu e Fabi precisávamos conversar com Vi sobre uns treco aí. Segue o bando espiriual: Eu, Carol, Kauê, Fabi e Pipoca (a influência maior de Doençinha).


Antes disso, vou descrever o Pipoca. Traçar uma visão análitica do jovem. Sujeito de mochila, cabeludo, barba por fazer, mais ou menos da minha altura. Ganhou meu respeito de cara por portar uma camisa da “Peeping Tom”. Pra quem não conhece, foda-se! Não vou explicar a grandiosidade de usar camisa dessa banda.


" Rapaz, você parece o Rafael Ramos, que tocava no Baba Cósmica”. E ele olhando pro chão, sorri, meio sem jeito. Menino artista, faz suas paradas também a ver com arte punk, mora em Campinas e não podia beber, pois estava se medicando. Algo bem Boça da parte dele, pois a noite seria alucinada se estivêssemos chapados.


Segue o roteiro. Impróprio, vimos Massacre tocar. Fechou o concerto com um fina meio Obituary. Conversas com os lelésques. Eis que em determinado momento, subindo a Augusta em buscar de diversão. Alguém grita:


  • Ô Eduaarrrrrdooooooooo???


Olho de longe, visão já meio tiritando, alguma coisa turva se transforma em Aline, ela estava com toda a gangue, fui lá comprimenta-la. Conversamos sobre “medicina” e logo depois prometi voltar com uma receita para a mesma, caso eu encontrasse nas drogarias 24 horas da vida.


Eis que decido com Cebola, dispersarmos do bando e seguir nossa balada como dois forasteiros dóceis e preparados para usufruir da arte do romance.


Milo foi a primeira parada. Como sempre: fila muito grande impedindo o desfecho mais coeso.


Em seguida, pensamos na festa que Mônaco sugeriu, puteiro Babilônia. O segurança disse que ia rolar música eletrônica, eis que desistimos na hora e partimos pra Outs.


Como eu não sabia quanto de grana tinha no meu cartão, não entramos no Nação Zumbi, que era o concerto mais caro, e fomos na mediocre apresentação do Rock Rocket. Nada contra, só é horrível aos meus ouvidos. Assim como algo que ouço deve ser ao do público desses caras.


Adentrando ao Outs, Cebla e eu estávamos a fim de amor, rápido, rasteiro, veloz e sem encanto. A fórmula das noites idiotas daquela ruazinha. Só que sem gastar um tostão. Eis que, umas meninas saudáveis, um trio, quase um trio parada dura, que dançava na nossa frente dá uma brecha.


Com todo meu jeitinho desengonçado, cheguei na menina que sorria mais vezes, com um ar ébrio. Antes avisei: “ Cola tb, Pipoca!” Dito e feito.


Me apresentei como um galã falido, à moda antiga. Tasquei um beijo na pequena e a amiga dela alertou:


  • Mêeeu, ela não fala português, ela é de Israel.

  • Claro, porque não? Topo! Vamo cair pra dentro. - E olhei pra ela.

  • Sure, why not? Let's falling into...


E comecei a dar idéia na Dahlia, que morava em Kaifa, que segundo a mesma, não é muito próximo de Tel Aviv, e fui me informando, informando, e dando idéia, e informando, e todo aquele joguinho de balada, huh?


E Pipoca, nada menos ligeiro, reconheceu a menina, a amiga do alerta, não é que a menina era da terra de Pipy (apelido carinhoso pro meu amigo)???


Passa um tempo, decidimos dispersar das meninas, por que a tava meio chato ficar conversando pra diabo. Acontecem uma série de coisas, que nos torna meio loosers, mas de certa forma, convictos.


Dahlia me ensina uma dança típica de Israel chamada “ROLA”, isso mesmo. A fonética da parada é ROLA! Não procurei infos ainda na net sobre a dança, mas era um bocado escrota. Dançamos umas danças daqui mais idiotas ainda.


Eu disse pra ela que “rola” aqui no meu país é outra coisa. E ela, sapequinha que era, confirmou que sabia!


Fomos embora da Outs. A fome falava mais alto, procuramos um lugar pra comer. Eis que optamos pelo Pedaço da Pizza. Antes, passamos no Tollocos, mas a grana já estava no fim, e não queriamos gastar tanto.


Biriri. Bororó. Tá lá, eu, Pipoca, e as pizzas do Fábio, grandioso pizzaiolo nascido em Feira de Santana, terra de meus pais. Mastigando, como dois mocinhos educados, eis que surgem jovens meninas da Paraíba. Com aquele sotaque lindo, arrastado, causando com o rival de região, o nosso amigo Pizzaiolo.


Fizemos contato imediato de primeiro, segundo e terceiro grau. Mariana havia me passado seus telefones, aí em determinado momento, uma das meninas diz que Lorenna, tinha algo especial reservado para mim. AHAHAHA... Dai ela, nota que já haviam alguns nomes e contatos de garotas, anotadas num farrapo tosco sem-vergonha. E começa um discurso anti-poligâmia.







Foram embora e nem se despediram.


Eis que voltando mais uma vez, dessa ainda mais sem rumo, uma cena no mínimo pitoresca. Para não dizer, PINTORESCA. Um sujeito, de costas para a parede, trajando uma camisa vermelha e calças jeans, batia uma punheta para duas meninas gordóticas sentadas próximas dele.


Eu e Pipoca não acreditávamos naquilo. Atrapalhou um bocado nossas vontade de tomar um cafézinho.


Mais tarde, ainda vimos uma mulher MUITO pelada, e conversamos sobre Silvio Santos e Rock'n Roll com um casal de espanhóis. Que não sei bem se era um casal, por que a espanhola queria fazer uma espanhola com Pipoca. Que ficou na contenção, eu faria o mesmo, sabe-se lá qual era a intenção do casal.


Decidimos ir pra São Caetano, Pipy liga para Kauê. O mesmo surge com Carol e fomos pro Ragazzo comer. Aliás, belo rango do local. Mil vezes melhor que comer no Habib's. E depois teve o Soundsystem, só nós fomos. Celebramos ao Looooorrrrrd. E depois apagamos.


Salinha de espera com Pipy. Ele dizia que estava com saudades de seu grande mentor: Doencinha.


São Paulo FC empatava com Santo André. Cheguei na casa dos meus pais, depois do jogo. Preparei um rango esperto. Enzo pulou em cima de mim. Liguei para a Ju.


Infograma do rolê:


Festas: Uma e meia.

Baladas: Uma e meia.

Horas sem dormir: Muitas.

Amigos no rolê: Graças ao Arquiteto do Universo, os melhores.

Quase-amigos no rolê: Uma penca, muito receptivos.

Alcóol ingerido: Nunca o suficiente.

Comida ingerida: Algumas pizzas, macarronada sinistra do Ragazzo.

Cenas esdrúxulas conferidas: Além do suficiente.

Meninas pagando calcinha: Eu vi, mas não lembro.

Sujeitos estranhos batendo punheta na rua: Um.

Thanks and Praises to The Lord (entenda como quiser): Diversos.

Gatinhas: Algumas de fora do eixo sudeste.

Gatinhas peladas: Uma.

Gordinhos dando idéias em meninas esdrúxulas bêbadas: Um.

Telefones/msn's de gatinhas: Além do programado.

Pessoas perguntando se eu toco numa banda de reggae: Uma.

Pessoas fazendo berimbal: Algumas.

Espanhóis doidões: Um casal.

Discos perdidos: Dois, que ficaram na mochila do Fabi.

Ligações para a Juliane: Duas.


Sejam positivos,

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Reinado do Homem Feito de Rugas e Tristeza Abissal

São Carlos é uma cidade estranha.
Penso isso - durante uma conversa com Giulia diante da praça que não lembro o nome.
Não é todo dia que um sujeito brota de uma fonte de uma praça como se fosse o monstro do Lago Ness.
Trajava nada.
O mesmo se move nú em slow motion.
O sujeito construia-se de rugas e seus olhos traduziam uma tristeza tão profunda como se estivesse à cair num abismo.
Giulia direciona a luz de seus gigantes olhos verdes ao dividir aquela cena comigo.
Deixa escapar um sorriso-de-canto-boca qual denuncia algum pensamento maldoso.
Observo com muita atenção e uma certa misericórdia.

Não consigo lembrar-me do que Giulia dizia antes do que ocorre.
Talvez a mesma estivesse buscando uma deixa para continuar o assunto, mas notou que em momento estou muito concentrado naquela cena.
Eis que acompanha-me.
E derrepente o homem enrugado e triste começa a urinar um líquido dourado.
Mezzo brilhante.
Mezzo avermelhado.
Tornando a límpida água da fonte de um aspecto similar ao que exprime de seu canal deferente por seu falo com crista de galo.

Penso que de certo modo aquela fonte pode ser uma extensão do homem.
Dizem que Poseidon é o rei dos mares.
Fontes não fazem parte de mares.
Contudo, ao menos aquela fonte fazia parte de um outro reinado.
O reinado do homem feito de rugas e tristeza abissal.




- Giulia, nota como isso sugere uma série de interpretações sobre o tempo e ao que nos sustenta em vida?
- Do que você tá falando?

Sempre que ouço essa pergunta, consciente de que falei com clareza e pausa cada palavra que forma a sentença da interrogação anterior, sinto vontade de ter uma arma desintegradora do Marvin, o marciano.
É terrível pensar que já teria desintegrado boa parte dos seres viventes que tentei conhecer ao longo destes.



E de certo modo, desintegro, pois logo depois de uma resposta questionadora como esta última direciono total descrença ao fato de que essa figura seja necessária ou eficaz em meu mundo.

- Deixa pra lá. Você só me entende quando estou dentro de você ou quando te explico piadas.
- É um homem mijando, certo? Não há nada de magnífico ou interpretativo nisso.
- Não há aos seus olhos, Gi.
- Nós poderíamos rir, voltar ao assunto que estávamos conversando e ir embora daqui?
- Nós poderíamos rir?
- É!
- Ainda bem que agente não se vê muito...
- O que quer dizer com isso?
- Nada. Tô sendo cusão.
- Vamos sair daqui?
- Sim.

Engraçado como às vezes temos a sensação de que nunca mais voltaremos à determinado lugar.
E como podemos arrancar um pedaço de momento em razão de algum acontecimento inesperado.
O que de início não passava de uma fonte inútil, rende uma boa lembrança de uma tarde vazia numa cidade vizinha de Araraquara.
Todos nós, guardamos lembranças em razão de algum fator, lugar, evento, ou situação, etc.
Até mesmo a arte em suas diversas vertentes ativam nossa memória de momentos bons ou ruins.

Acordo e estou indo embora.

- Promete que me liga quando chegar?
- Não. Vou ensaiar assim que chegar.
- Me liga depois então...
- Hmmmm - cruzei os dedos - Tudo bem!

Mau já estava no ônibus.
Nossas poltronas são vizinhas.
Conversamos sobre a loucura desenrolada nesses rolês, concertos, caminhões de sprite e máscaras.
A idéia da fonte ser um reinado ainda existe em meu subconsciente.
Contudo, guardo para mim, pois, quem hoje em dia se interessa por isso?

Tentei dormir.
Manter o corpo aceso na noite anterior teve um preço.
O ensaio foi uma tremenda merda.
Apaga a luz!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sentença de Vida

Acordo no reflexo.
Olho no despertador que marca 6 horas e 20 minutos.
Entro religiosamente às 7 horas e 15 minutos.
Hoje é como ontem, e ontem será como amanhã que não passa de mais um hoje enrustido.
Pensei durante as escovadas circulares, dez vezes de cada lado e então alterna, tudo isso conferido com reluzidas no espelho.
Aprendi no consultório odontológico.
Saio do banheiro, procuro minha mochila, walk-man grandão horrível que mais parecia um extintor, skate véio e confiro material. Deixo tudo no esquema "cozinha-partiu".

Mamãe dorme. Papai também.
O que é estranho, pois os velhos costumam estar "acesos" neste horário para ir aos seus respectivos trabalhos.
Talvez estejam de férias, pensei - eles sempre combinam férias para viajar juntos. Já meus irmãos mais novos estudam durante a tarde, ou seja, são felizes proprietários das rédias dessa boiada de pregar os olhos até umas horas.

A vida é dura.
Contudo, sei preparar meu café - e graças ao grande pai tenho algo para "roer" assim que acordo.

São 6 horas e 40 minutos.
Estou no ponto de ônibus trajando meu "lindíssimo" uniforme (obrigatório por questões financeiras de interesse da escola e sei lá por que diabos) que não passa de uma camisa azul escura horrível com nome da escola, num tecido que não sei dizer e uma camisa branca com gola estranha mais feia ainda.
Noto que estou sozinho no ponto.

O que é de se estranhar, pois geralmente outras crianças da minha idade estariam aqui no ponto-de-ônibus aguardando a "bumba".
Foda-se!

E o ônibus está atrasado, porque geralmente chega as 6 horas e 45 minutos.
Foi assim ontem, anteontem. Sempre é assim, oras.
Pôrra!
Penso no motivo pelo qual não passei na banca de jornal para sacar a manchete de cada jornal, que é um hábito frequente.
Contudo, melhor não ir na banca de jornal, que fica praticamente na rua do lado do ponto, dessa forma posso perder o ônibus.

Se chego atrasado, a diretora já anda "fodidinha-da-silva" comigo porque explodi uma bomba no banheiro na semana passada.
Êita, já era hora.
O ônibus chega.
" Bom dia, cobrador." Disse ao cobrador que me olha estranho pra diabo.
Nem respondeu meu "bom dia" - pensei: " Que filhodaputa esse cobrador, nunca mais digo bom dia pra ele".

Cobrador legal mesmo é o gradessíssimo Zé-da-Égua, sempre conversamos sobre uma porrada de coisas.
Sobre xereca das meninas, sobre futebol, sobre rock'n roll - apesar do mesmo dizer que forró que é o que liga.

Certa vez, depois de insistir muito, Zé me explicou o que é gozo. Eu não sabia o que era.

Sabe por quê?
No começo do ano, uns caras "durões" da 5ª D me zuaram e deram soco no meu olho, porrada no fígado, cotovelada no gogó e várias torturas, bullying total.

Tudo começou quando Cosme, um arrombado aí do mais alto gabarito, que se acha mais macho que os caras do "Tele-Catch*" resolveu ter "um particular" comigo no intervalo:

Eu estava quietinho no meu canto, acabara de mastigar minha fogazza de queijo. E daí:

- Aí seu idiotinha de uma moléstia, disseram que você fez um buraco no banheiro das meninas. Sabia que minha irmã viu você olhando?
- Eu fiz mesmo, cara. O que posso fazer? Tenho curiosida...! POW (igual no seriado zuado do Batman)

Ele me deu um socão que ecoa desses que parece uma bigorna direto na sua fuça e disse enquanto absorvia a dor do seu punho de repetente de 14 anos - ao mesmo tempo que chegavam seus comparsas na famosa rodinha de treta de "recreio".

- Por que você me bateu?
- Foda-se porque te bati. Bato quantas vezes quiser. Se minha irmã falar algo sobre você continuar nessas pilantragem lá no banheiro, conversamos lá fora.
- Olha só, cara. Não adianta me bater. Eu vou continuar olhando.
- Você é folgado, sabia?
- E daí?
- Vc tem 10 anos, pirralho. Você nem sabe que cor é seu gozo.
- Lógico que eu sei...
- Que cor é seu gozo, então? Se errar vai apanhar mais ainda!
- É... (Fiquei pensando)... É... AZUL!

PAM-POW!!! Levei mais dois socões, enquanto os carcarás, amigos do Cosme, riam da minha "cabaçisse".

- Hahahaha... Vamo embora, caras. Esse moleque é um doido mesmo!

Cuspi sangue e foi um dente-de-leite junto. Lembrei da bola dente-de-leite.
Horrível, toda oval.
Daí, cheguei no busão para voltar pra casa com olho roxo, todo escangalhado.
Zé-da-Égua perguntou por quê briguei.
Expliquei o ocorrido. Zézão riu horrores.
E disse na sequência que gozo não é azul, explicou o quê era e que irei descobrir a cor um dia por mim mesmo.
Se caso algum brigão perguntar, para dizer que não sei mesmo, pois sou juvenil demais.

Bons tempos.
Isso foi no começo do ano. Estamos na metade do ano e pensando nisso, quase passo do ponto de desembarque.
Não sei porque o Zé-da-Égua não veio trabalhar hoje.

Engraçado que este cobrador ainda continuava me olhando estranho, e não tinha nenhuma outra criança no ônibus. Pensei que derrepente pudesse ser alguma espécie de feriado ou ponto facultativo.

Dou sinal no ponto da escola.
Desci e caminhei até o bar do Nasal que também estava fechado. Viro a esquina da Martim Francisco e me deparo com os portões fechados e ninguém na escola.
Não estava entendendo porríssima nenhuma.

E as pessoas que passam por mim, olham mais estranhas que a vista grossa do cobrador.
Até um maldito MONOCELHA me olha esquisito.



- Que é que foi, monocelha do caralho? Sai fora!

Quem passa de carro buzina, e dá uma zuada. Quem passa do meu lado, fica olhando-me das cabeças aos pés.

Lembrei de uma vez que tive um pesadelo que ia para a escola pelado sem perceber e todos começaram a rir de mim (e não comigo, huh?).
Daí meu pinto encolhia até virar um mamilo.
Contudo, estava trajando o uniforme da escola.

- Peraí...


Eis que caiu a ficha.
Fui na banca de jornal e li a pior notícia do dia: " Sábado, 12 de Junho 1993".
A moça da banca de jornal sorriu para mim e disse ao ver minha cara de confuso:

- Que menino estudioso! Vai à aula mesmo quando não tem. Fofo!!!

Respondi com um sorriso amarelo forçadíssimo ao limite de um semblante corado de vergonha e frustração.

Queria me enfiar no buraco do cu do capeta, bixo.
E não importa se o "coiso-ruim" peidasse chamas ardentes do mármore do inferno.

Vontade maligna emergindo do fundo do meu coração uma tensa vontade de gritar e rasgar aquele uniforme e sair correndo por aí doido.

Eis que pensei:

" Merda, preciso voltar pra casa urgente, se a rapêize da escola saca que eu fui pra aula num sábado, eu tô fodido.
Vou levar mais porrada de Cosme e seu bando. Serei motivo de chacota mais que já sou". E corri. "Run, Forrest, Ruuuuuun..."

Corri no desespero como quem foge de um mundo cruel e filho-da-puta que tenta te mastigar para cuspir.
Eis que paro. Para buscar mais ar.
Pego meu walk-man que mais parecia um tocador de LP's, coloco a fitinha de alguma coletânea que algum brother mais velho da pista de skate me descolara.

Nem vi o que era, coloquei a primeira k-7. E Jello Biafra dizia algo aos meus tímpanos sobre "sentença de vida"!

Chego em casa e são quase 8 horas.
Todos ainda dormindo.
Abro o portão com muito cuidado, eis que entro de fininho.
Desço pro meu quarto. Jogo minhas tralhas no cama, pego o cobertor que tinha dobrado.
Deito todo suado na cama. Me encubro e tento voltar ao sono.

Durmo depois de alguns pensamentos soltos, com uma certa sensação de estranheza do mundo.



Tele-Catch * Programa de luta-livre que rolava na extinta tv Manchete.